sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

De volta pro agora



O mesmo século XX que derreteu metade das geleiras, abriu buracos nas camadas mais impensáveis dos gases e fez guerra por besteira, como menino birrento, duas vezes seguidas – eles dizem; tantas vezes, sabemos nós – teve fôlego, um dos nomes do otimismo, para chegar à lua, criar teorias da conspiração e inventar o ar condicionado. Do punk rock ao celular, tudo era novo, não existia ainda esse negócio de moda cíclica.

Os mais descolados de hoje usam óculos dos anos 50, ouvem as músicas dos anos 80, assistem séries criadas em 2016 que parecem ter saído da sessão da tarde dos anos 90. Tudo isso na parte de fora, é certo. Por dentro, o que existe é o medo. Sim, medo de falhar de novo. Medo do que nos tornamos quando separamos os cômodos dentro do cérebro: progresso, ciência e razão ficaram com a sala de estar, a cozinha e os quartos. A emoção, a arte e a fraternidade, gritada aos quatro cantos certa vez em uma tal revolução europeia, ficaram com a dispensa dos fundos, espremidas entre tudo o que era subjetivo.

Já disseram muitos, mas não custa dizer de novo, ainda que sirva para alguém desdizer com argumentos melhores, eu espero: o sonho do homem moderno era construir máquinas que se comportassem como homens. Para isso, os homens tiveram que se comportar como máquinas. O sonho do homem pós-moderno, se me permite Bauman, é poder sonhar. Simplesmente.

Alguém avise ao Doutor Brown que, mais que um DeLorean voador, precisamos de uma máquina que nos ensine a viver agora.

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