sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Sem Replay



Um dia você acorda e percebe que não sabe quantos anos tem. O aniversário deixou de ser a data mais esperada há muito tempo. Mas foi pouco a pouco que todas as outras festividades – do Natal ao São João – perderam aquele quê de especial. Aos sete anos, o domingo tinha sol de domingo, não importa se os termômetros marcassem as mesmas temperaturas de todos os outros seis dias da semana. A locadora de VHS tinha cheiro de locadora de VHS. As escadas rolantes eram temidas como as câmeras de gás dos campos de concentração e os cachorros, dos pequenos aos gigantes, eram algo semelhante aos juros da conta atrasada do banco.

Medo de cachorro? Não mais. Medo do escuro? Tampouco. Medo do que vai fazer daqui a um ano? Talvez. Medo do que serei daqui a 10: esse sim, aterrorizante.

A vida é como um filme legal na sexta-feira à noite. Um cochilo só e já está quase no meio e você não viu quem foi que fez besteira, se foi o cara do bem ou o vilão disfarçado, só sabe que algo precisa ser feito. Pra já. O que conforta mesmo, ainda que esqueçamos disso na maior parte do tempo, é saber que, pelo jeito que olhamos no espelho, dificilmente seríamos uma película iraniana. Pela rapidez dos cortes e intensidade das cenas, teremos final feliz sim, com direito a música de fundo que toca na rádio e faz esquecer os sustos e opas, os cochilos. Tudo, tudo.

Agora é torcer para que os últimos 80 minutos sejam sensatos, inteligentes, bem-humorados, apaixonantes. Boa trilha sonora também não seria pedir demais, certo?

Um comentário:

  1. Você como sempre, brilhante. Desde criança. Não é agora que seria diferente.

    Digo que você é um bom vinho. Quanto mais velho, melhor fica.

    Abração.

    ResponderExcluir